domingo, 3 de maio de 2015

Capítulo II


II

Já prejudiquei alguém?

Certamente que sim. Tenho meus próprios pântanos, e pântanos podem ser infectantes... Podem ser danosos, provocar sofrimento, lesar.... Involuntariamente, talvez, tu me dirás... Pois pântanos não são dotados de vontade, ou seja, não há finalidade ou premeditação no que provocam... Pântanos apenas existem...

Mas pode-se dizer o mesmo dos pântanos interiores de um homem?

Certamente que não. Um homem deve saber controlar seus próprios pântanos, deve saber como extrair deles um diamante, deve poder transformá-los...!  Deve saber e poder sublimá-los; torná-los jardins agradáveis que produzam flores e não pestilência, para que exalem perfume e não fedor...! Ou, simplesmente, para que se tornem inócuos... Ou então, no mínimo, deve saber como contê-los, como controlá-los, deve saber limitar o raio de ação de seu poder infectante...! É o mínimo que se espera de um Homem...

Não deveria, portanto, ter feito o que fiz, o que quer que tenha sido, se foi danoso ou prejudicial a quem quer que seja. Não deveria. E não apenas para poupar a quem prejudiquei, mas também para poupar a mim mesmo... Não apenas em nome de quem foi vítima do dano, mas também por mim, pelo meu próprio bem, pelo bem de minha alma...

Tu, ao ouvires tal coisa, provavelmente me dirás:

— Mas tu és um descrente, Viajante...!  Não crês que um Deus criador tenha te presenteado com uma alma eterna, pura e perfeita...! E então por que te preocupares? Por que te afligires? Se não crês numa Justiça Divina que te governa, então que te importa a alma, seu destino ou seu estado? Não estás sendo um insensato zelando por algo cuja existência não ousas admitir? Não estás te comportando como um tolo, preocupando-te com algo que pode não passar de mera invencionice criada para acalmar espíritos frágeis...? Se não crês numa alma eterna, por que a poupares...?

Admito que o que me dizes é, de certa forma, pertinente...

Mas responder-te-ei, então, que não se trata de acreditar na existência de uma alma eterna, ou de uma eternidade para a alma. Pode ser que a alma, ou o que quer que seja que se compare a isso, seja aniquilada quando a estrutura física, material, na qual se aloja, deixar de existir. Pode ser eterna, pode não ser. Pode morrer comigo, pode não morrer. Não o sei. Não o posso afirmar. Mas tenho por certo que há, sim, dentro de mim, algo que pode ser chamado de alma, e não considero necessário neste momento, para responder à tua pergunta, definir ou sequer tentar definir o que isso possa ser. Eu talvez nem saiba como fazê-lo. E talvez ninguém, de fato, ainda o saiba, mesmo que acredite saber. Mas não considero que a definir seja relevante, não agora, não para esta conversa. Porém afirmo: há alguma coisa de imaterial dentro de mim, seja o que for, qualquer que seja o nome pelo qual seja chamada.

Chamá-la-ei de alma. E pode ser eterna ou não, já te disse, não o sei.

Pode não ser eterna, pode ser que morra comigo; mas nem por isso devo feri-la. É minha. Está em mim. Faz parte de mim. Feri-la, portanto, seria ferir a mim mesmo. E mesmo tu, por mais estúpido que sejas, hás de concordar comigo que ferir a si próprio é insanidade. Portanto, se ao provocar um dano a outrem provoco também um dano em mim mesmo, melhor seria, então, não provocar dano a ninguém, não achas?

Tu me dirás:

— Estás errado, Viajante. Pressupões que sempre que prejudicas a outrem prejudicas também a ti mesmo, e isso não é a verdade. Eu, tanto quanto tu, posso perfeitamente causar um dano a alguém sem que com isso eu deva necessariamente me ferir.  Com um tiro, por exemplo... Provoco um ferimento, mas não me firo... O mundo inteiro, aliás, funciona ao contrário do que imaginas. Vê a serpente, para que entendas o que digo: seu veneno fere, mas ela própria não é ferida; ao contrário, beneficia-se, e muito, da própria peçonha. Ou o leão, também, cujas mandíbulas destroçam a zebra que o mantém vivo...

Contesto teu raciocínio. Não sei se serpentes e leões têm alma, mas, caso a tenham, deve estar também no âmbito do não-material, ou não seria o que estou a considerar como alma; não poderia ser material, como o veneno e a mandíbula; não agiria sobre a matéria como o veneno e a mandíbula. Uma alma pode, obviamente, fazer com que a matéria na qual se guarda atue sobre uma outra matéria, mas ela própria não é matéria, não o pode ser; pode até controla-la, interagir com essa matéria para que fira, mas sua essência é outra; e sua forma de interagir também deve ser outra. Ou não será alma.

Pensemos, portanto. Se não é matéria, não deve ter limites; pode até ser finita, mas não deve ter limites. E se não tiver limites, deve, evidentemente, poder mesclar-se a tudo. E se puder mesclar-se a tudo, deve, necessariamente, tanto afetar quanto ser afetada. Pois a mescla afeta tudo o que é mesclado, ainda que em proporções diversas...

Se me permites a comparação, pensa no ar que te rodeia, a ti e aos que te cercam. Considera-o como imaterial. Está por dentro e por fora de vós. Respirais, tu e os que te rodeiam. Mas o ar que expirais é danoso, danoso para todos, já que o havereis de novamente inspirar mesclado ao que ainda não é danoso; é peçonha, peçonha que se mescla ao que haveis de novamente inspirar; e que estará por dentro e por fora de vós, como um dano que causais a vós mesmos... Tudo o que se miscigena é miscigenado...

Compreendes o que digo...? Que a alma pode causar um dano a si mesma...?

E se assim for, nada ganho, portanto, prejudicando a outrem, já que prejudico a mim mesmo... Mas se assim não for, nada perco, tampouco. Em que minha alma seria prejudicada ao evitar prejudicar alguém?

Minha alma poderia sofrer, tu me dizes... Evitar um dano a outrem pode comprometer sua integridade, sua sobrevivência, seu bem-estar, sua tranquilidade...

Mas se creio que o mal não existe nem naquele que faz e nem naquilo que é feito, e sim naquele que não extrai nada de bom nem daquele que faz e nem daquilo que é feito, então eu, de fato e definitivamente, nada perco; e se perco a culpa é minha, não do dano que me esforcei por evitar; minha, por não saber extrair nada de bom do sofrimento de minha alma, pereça ela comigo ou não.

E compreendes que, assim sendo, tanto faz se a alma se extingue comigo ou não? Que é indiferente se ela é eterna ou não? E compreendes também que, caso essa alma seja eterna como me dizes, e caso tenha sido presente de um Deus criador, esse mesmo Deus há de reclamá-la em sua integridade? E que, também nesse caso, melhor seria não a prejudicar prejudicando a alguém?

Eu, de minha parte, reafirmo-te o que já te disse: não devo causar dano a ninguém, sob pena de danificar minha própria alma. Se a alma perece comigo, nada perco ao fazer tal coisa. Mas se ela sobreviver a mim, se for eterna, como me dizes, garanto-te uma outra coisa: hei de devolvê-la melhor do que estava quando a recebi, mais bela, mais graciosa, mais lapidada... Eis, talvez, a minha busca... Sim, hei de devolvê-la melhor do que estava quando a recebi... A quem quer que seja. Ao que quer que seja. Mesmo que seja ao nada. Ou ao Deus irresponsável que a criou. É minha.