III
Mas talvez nem sempre queiramos, de fato,
controlar nossos pântanos. Há momentos em que os calcanhares de um
homem são frágeis demais para sustentar uma alma inchada a sobrecarregar um
corpo já cansado de carregar a si próprio.
Choremos, então.
E, neste momento, creio que talvez o
choro seja uma maneira de resgatarmos nossa humanidade, nossa confusa, porém
exclusiva, humanidade... Um choro... Com toda a nossa humanidade expressa num
choro... Como um arrebatamento também exclusivo, único, uma singularidade à
qual nem mesmo Deus se permite... Pobre Deus...! Limitado em sua infeliz onisciência...!
Pois choremos, então. Dilatemos nossa
humanidade a não mais caber em nós.
Choremos o que nos for possível chorar, se a
vontade assim o exigir... Choremos quando o domínio que pensávamos ter se esvair
como ar pelo ar que lançamos ao ar, cedendo lugar a uma angústia imensurável...
Que penetra sem preencher... Que solidifica o vazio... Que torna denso o nada...
Como se a própria tristeza nos perpassasse pelas narinas ao simplesmente
respirar, indo e voltando, indo e voltando... Como se o ar se tornasse espesso,
e os pulmões não o pudessem suportar... Indo e voltando, indo e voltando...
Choremos. Nada mais pode ser feito. Não por
nós. Não controlamos o destino, mas ele também não nos controla. Não há nada
nem ninguém no comando. Estamos a mercê de algo que é feito de nós mas não é
feito por nós. É o incontrolável que nos controla agora. Mudança de rumo em
meio aos caminhos caóticos do caos. Nada mais pode ser feito. O amanhã talvez
não venha, e se vier não será um hoje, não terá tido um ontem, nem terá um
outro amanhã... O tempo se perdeu.
Então choremos. Choremos o que nos for possível
chorar, enquanto ainda nos é permitido chorar... Enquanto ainda nos é possível
chorar... Pois nada se lava sem água, e essa é a essência do chorar... Não
sabes que lágrimas são feitas de água...? Não sabes que a água lava e leva...?
Choremos.
Nunca a proximidade do longe ou a distância do
perto foram tão evidentes. Estivemos ausentes em presença e presentes em
ausências. Perto e ao mesmo tempo longe. Pertos da distância. Longes da
proximidade. Mas talvez ausência e presença sejam uma única e mesma coisa, se
estamos dentro de nós, se estamos dentro dos nossos próprios limites... A vida,
de um momento para o outro, torna-se cheia de vazios. E o vazio, incrivelmente,
ocupa muitos espaços e tem a gravidade de um buraco-negro...
Pois sempre entristece que o objeto da vontade
esteja longe, porém ao alcance da vista; tanto quanto o estar perto, mas fora
do alcance das mãos. E sempre incomoda o que está cheio de espaços vazios,
porque não há outra utilidade para o espaço que não seja a de ser preenchido
por vida. E sempre incomoda a presença da ausência. Sempre incomoda o sentir-se
um invólucro para o nada.
Choremos.
Não nos foi dado o que não pudemos pegar por
conta própria, apesar de estar ao alcance das mãos e dos olhos. Não nos foi
dado estar no controle. Não nos foi dado modelar nossa existência, não pela
ação exclusiva da vontade. Querer não é poder...! Mentem os que afirmam o
contrário! Somos condenados a querer o que podemos, e qualquer coisa além disso
estará nos domínios do devaneio, que são os únicos lugares onde podemos o que
queremos.
Mas tocar não é possuir, ver não é compreender,
escutar não é comungar, zelar não é doar-se, permanecer não é estar, e estar
não é ser.
Temos limites.
E limites são preservação, pois se não os
tivéssemos não seríamos o que somos, não em nossa individualidade: seríamos
mistura; e ainda que toda mistura seja um todo, o deixará de ser se misturar-se
a outra coisa. E limites são proteção, pois se os rompermos estaremos vulneráveis
ao que está por fora. E limites são imposição, impõem a existência e a
integridade do dentro e do fora. Limites são limites: impedem.
Temos limites.
E se acreditamos, algum dia, que os rompemos, então
não eram de fato limites. Eram distorções da realidade, ilusões criadas por nós sobre
nós mesmos. Limites não podem ser transpostos. Ou não serão limites.
E todos temos limites.
E dói, dói muito, quando nos espatifamos contra
qualquer um deles. Dói até o desespero.
Choremos, então, em meio
aos nossos próprios pântanos. Talvez com lágrimas os possamos drenar.