I
Muito
ainda há por dizer, aqui do alto dos meus calcanhares, sobre o que já vi e vejo,
sobre o que já disse e digo. Trago comigo, ainda, muito dos pântanos e florestas
os quais percorri; muito das geleiras e dos desertos, dos vales e das
montanhas; e também do que há no coração dos homens...
E
isso às vezes me assusta...
Porque
há os que não souberam perceber um certo sentido oculto nas minhas palavras; há
os que não souberam interpretar o alcance da minha fala, ainda que
metaforizada em um único parágrafo; há os que escutaram sem ouvir, processando
dentro de si o que era novo como se fosse mais do mesmo, o que era total como se fosse apenas prévio; como se minha voz lhes
alcançasse apenas os ouvidos e não os pensamentos, convertendo o que saiu de
minha boca em algo que já tinham dentro de si.
E
isso às vezes me assusta...
Percorri,
sim, pântanos e florestas, desertos e geleiras, vales e montanhas; mas não
apenas os pântanos e florestas dos geógrafos; não apenas os desertos e geleiras
nos quais se pode pisar; não apenas os vales e montanhas que constam nos mapas.
Não.
Eu
os percorri também dentro do homem. E deveis crer no que digo: também há
pântanos e florestas dentro do homem, há vales e montanhas, há desertos e
geleiras. Imagino que já tenhais constatado tal coisa, certamente, mas talvez
ainda não tenhais percebido que eu também vos falo disso... Dos desertos,
pântanos e geleiras que se encontram dentro do homem... Que não percorri tais
lugares apenas enquanto ambientes físicos, visíveis e tocáveis. Eu os percorri
também dentro do homem, pois que tais coisas estão lá, também, dentro dele, e com
todas as suas implicações...
E
isso às vezes me assusta...
Já
te disse que o homem tem várias faces, várias almas, várias vidas, mais até do
que os gatos. Mesmo o Velho reconheceu isso ao dizer que ‘todo homem é uma horda’.
O homem é vário.
Crede,
todo homem tem pântanos dentro de si. Charcos inconsistentes nos quais é
difícil alicerçar qualquer coisa. Lodaçais imundos que exalam pestilência, que
atraem e geram o que é nocivo ao próprio homem, que incubam e atraem criaturas
danosas. Pântanos tóxicos, devoradores, tão devoradores que podem consumir o
próprio homem e tudo o que dele se aproximar, como um abarcador buraco-negro de
imundície. Sim, há pântanos dentro do homem, infectando as suas almas. E há
homens que são tragados por seus próprios pântanos.
Todo
homem tem desertos dentro de si. Aridez na qual nada brota a não ser a
fantasmagoria das miragens, enganos feitos de areia, de
grãos que vagam sem objetivo construindo cenários amorfos. Sonhos mortos granulados. Paisagens mortas
onde nada se desenvolve ou cresce, a não ser a sede perpétua de algo que não mais
virá. Sede de alma. Há homens, sim, sequestrados por seus desertos, sufocados por seu calor,
onde nada de humano sobrevive; onde até mesmo um Sol torna-se um torturador assassino; onde a própria vida
evapora deixando um horizonte causticante e morto em seu lugar. Sim, há
desertos dentro do homem, secando as suas almas. E há homens que são carbonizados
por seus próprios desertos.
Todo
homem tem geleiras dentro de si. Geleiras onde também nada evolui ou cresce. Glaciares
maciços que a tudo paralisam, onde tudo estanca, onde tudo se petrifica. Corpos
de sangue sólido, imóvel. Habitação inflexível de espíritos inflexíveis. Solidez
congelada de ausência de vida; ou de vida imobilizada, suspensa,
esterilizada... Massa gélida paralítica e paralisante. Atrofia insensível de
sensibilidade. Sim, há geleiras dentro do homem, mineralizando suas almas. E há
homens fossilizados por suas próprias geleiras.
Percorri,
sim, vales e montanhas, pântanos e florestas, desertos e geleiras. Mas o fiz
também dentro do homem. E eu vos preciso conscientizar disso: que todo homem tem desertos, geleiras e pântanos dentro
de si. Sim, estão todos lá, dentro dele, dormentes, predatoriamente emboscados. Podem
ou não continuar onde e como estão, adormecidos, ignorados até. Mas estão lá, e
podem também, a qualquer momento, se manifestar, sem que sequer percebais que vos estão envolvendo, sujeitando, controlando... São devoradores imperceptíveis, e sua voragem é anestésica... Podem se expandir
exacerbando-se à totalidade das almas de um homem, a tudo secando, congelando,
atolando...
Sim,
todo homem tem seus pântanos, seus desertos e suas geleiras dentro de si. Todos,
sem exceção. Inclusive eu.
E
isso às vezes me assusta...
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