segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Capítulo I


I

Muito ainda há por dizer, aqui do alto dos meus calcanhares, sobre o que já vi e vejo, sobre o que já disse e digo. Trago comigo, ainda, muito dos pântanos e florestas os quais percorri; muito das geleiras e dos desertos, dos vales e das montanhas; e também do que há no coração dos homens...

E isso às vezes me assusta...

Porque há os que não souberam perceber um certo sentido oculto nas minhas palavras; há os que não souberam interpretar o alcance da minha fala, ainda que metaforizada em um único parágrafo; há os que escutaram sem ouvir, processando dentro de si o que era novo como se fosse mais do mesmo, o que era total como se fosse apenas prévio; como se minha voz lhes alcançasse apenas os ouvidos e não os pensamentos, convertendo o que saiu de minha boca em algo que já tinham dentro de si.

E isso às vezes me assusta...

Percorri, sim, pântanos e florestas, desertos e geleiras, vales e montanhas; mas não apenas os pântanos e florestas dos geógrafos; não apenas os desertos e geleiras nos quais se pode pisar; não apenas os vales e montanhas que constam nos mapas.

Não.

Eu os percorri também dentro do homem. E deveis crer no que digo: também há pântanos e florestas dentro do homem, há vales e montanhas, há desertos e geleiras. Imagino que já tenhais constatado tal coisa, certamente, mas talvez ainda não tenhais percebido que eu também vos falo disso... Dos desertos, pântanos e geleiras que se encontram dentro do homem... Que não percorri tais lugares apenas enquanto ambientes físicos, visíveis e tocáveis. Eu os percorri também dentro do homem, pois que tais coisas estão lá, também, dentro dele, e com todas as suas implicações...

E isso às vezes me assusta...

Já te disse que o homem tem várias faces, várias almas, várias vidas, mais até do que os gatos. Mesmo o Velho reconheceu isso ao dizer que ‘todo homem é uma horda’. O homem é vário.

Crede, todo homem tem pântanos dentro de si. Charcos inconsistentes nos quais é difícil alicerçar qualquer coisa. Lodaçais imundos que exalam pestilência, que atraem e geram o que é nocivo ao próprio homem, que incubam e atraem criaturas danosas. Pântanos tóxicos, devoradores, tão devoradores que podem consumir o próprio homem e tudo o que dele se aproximar, como um abarcador buraco-negro de imundície. Sim, há pântanos dentro do homem, infectando as suas almas. E há homens que são tragados por seus próprios pântanos.

Todo homem tem desertos dentro de si. Aridez na qual nada brota a não ser a fantasmagoria das miragens, enganos feitos de areia, de grãos que vagam sem objetivo construindo cenários amorfos. Sonhos mortos granulados. Paisagens mortas onde nada se desenvolve ou cresce, a não ser a sede perpétua de algo que não mais virá. Sede de alma. Há homens, sim, sequestrados por seus desertos, sufocados por seu calor, onde nada de humano sobrevive; onde até mesmo um Sol torna-se um torturador assassino; onde a própria vida evapora deixando um horizonte causticante e morto em seu lugar. Sim, há desertos dentro do homem, secando as suas almas. E há homens que são carbonizados por seus próprios desertos.

Todo homem tem geleiras dentro de si. Geleiras onde também nada evolui ou cresce. Glaciares maciços que a tudo paralisam, onde tudo estanca, onde tudo se petrifica. Corpos de sangue sólido, imóvel. Habitação inflexível de espíritos inflexíveis. Solidez congelada de ausência de vida; ou de vida imobilizada, suspensa, esterilizada... Massa gélida paralítica e paralisante. Atrofia insensível de sensibilidade. Sim, há geleiras dentro do homem, mineralizando suas almas. E há homens fossilizados por suas próprias geleiras.

Percorri, sim, vales e montanhas, pântanos e florestas, desertos e geleiras. Mas o fiz também dentro do homem. E eu vos preciso conscientizar disso: que todo homem tem desertos, geleiras e pântanos dentro de si. Sim, estão todos lá, dentro dele, dormentes, predatoriamente emboscados. Podem ou não continuar onde e como estão, adormecidos, ignorados até. Mas estão lá, e podem também, a qualquer momento, se manifestar, sem que sequer percebais que vos estão envolvendo, sujeitando, controlando... São devoradores imperceptíveis, e sua voragem é anestésica... Podem se expandir exacerbando-se à totalidade das almas de um homem, a tudo secando, congelando, atolando...

Sim, todo homem tem seus pântanos, seus desertos e suas geleiras dentro de si. Todos, sem exceção. Inclusive eu.

E isso às vezes me assusta...

 

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