segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Capítulo X


X
Afliges-te por teres a cabeça nas nuvens? Querias ter os pés no chão, para que tua jornada pela vida fosse menos marcada pelo desencanto? Temes que a leveza excessiva das nuvens faça com que teus sonhos comprometam tua sobrevivência no mundo real?
Compreendo-te. Chão e céu se confrontam dentro de ti. Compreendo-te.
Deves também, certamente, ter que conviver com a opinião daqueles que te cercam. Os que estão fora de ti também estão dentro de ti.
Querem que tenhas os pés no chão. Alertam-te para os perigos que decorrem do ter a cabeça a flutuar pela pouca densidade dos céus. Dizem-te que fatalmente tropeçarás, como tropeçam todos os que não olham por onde andam, os que não têm os pés no chão... Falam-te que as nuvens não hão de te sustentar, que na realidade nunca dão sustentação a nada a não ser a si próprias; que delas despencarás de um momento para o outro, cedo ou tarde, amanhã, talvez hoje, talvez agora... Que o chão voraz há de tragar-te como um buraco-negro rumo ao insondável...! Alertam-te, sim, alertam-te que o que chamas de insondável é, na realidade, apenas o mundo real, é somente o evidente que não consegues ver por estares com a cabeça nas nuvens... Mas de nada adianta, tu continuas sendo puxado para elas...
Dizem que cairás, que fatalmente cairás. E que tua queda será brusca. E que será surpreendente. E que será marcante, de tão estarrecedora e desconcertante que será. E isso se não vier a te aniquilar, matando tudo o que tens de ti dentro de ti. Pois será plena. Plena em plenitude. Dizem que a sentirás em todas as dimensões da tua alma. Isso se te restar algo da alma que tinhas antes. Perder-te-ás. Dizem que descobrirás, da pior maneira, o quão irresponsável foste ao colocar tua cabeça entre as nuvens.
Mas tu sabes disso tudo. No fundo, bem no fundo, tu o sabes. E concordas, concordas com tudo o que todos te dizem. Admites que há verdade no que ouves, tanto que, por vezes, quiseste e tentaste colocar os pés no solo. Sabes que chão cobrará seu preço dos que dele tentarem se apartar.
Vives, então, com os pés no chão.
Mas aflige-te teres os pés no chão... Querias ter a cabeça nas nuvens, para que tua jornada pela vida fosse mais cheia de encanto... Temes que a rigidez e a rudeza excessivas do chão comprometam o teu sonhar...
Compreendo-te. Chão e céu ainda se confrontam dentro de ti. Compreendo-te.
E resta ainda a opinião daqueles que te cercam, pois os que estão fora de ti também estão dentro de ti.
Querem que sejas menos pragmático, querem que dês a ti mesmo o direito de sonhar, pelo menos um pouco. Alertam-te para os perigos de se ter os pés demasiadamente presos à dureza do chão. Dizem que essa dureza acabará por penetrar-te, e instalar-se-á em ti de tal forma que não mais a conseguirás extirpar... Falam que absorverás a crueza do mundo, que não terás encanto e nem beleza...
Dizem também que a vida é feita de tropeços que não devem ser para sempre e constantemente evitados. Dizem que um homem precisa arriscar-se a tropeçar, de vez em quando; que tropeços aperfeiçoam, fazem crescer... Que homens que não tropeçam se acovardam, que a vida precisa de riscos para ser gratificante... Dizem que quem nunca cai jamais há de saber como ou mesmo se poderá se reerguer... Que a queda faz parte do aprendizado, que os muito meticulosos se tornam inseguros, temerosos da ousadia, e que nada realizam de grandioso...
Compreendo-te. Compreendo-te muito bem.
Tens um dilema em ti. A cabeça anda nas nuvens, mas os pés querem estar no chão. E não sabes se queres a cabeça nas nuvens ou os pés no chão. Temes perder a cabeça, temes faltar o chão.
És um estúpido. Afliges-te em vão. É perfeitamente possível ter a cabeça nas nuvens e os pés no chão. Basta ser grande.