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Afliges-te
por teres a cabeça nas nuvens? Querias ter os pés no chão, para que tua jornada
pela vida fosse menos marcada pelo desencanto? Temes que a leveza excessiva das
nuvens faça com que teus sonhos comprometam tua sobrevivência no mundo real?
Compreendo-te.
Chão e céu se confrontam dentro de ti. Compreendo-te.
Deves
também, certamente, ter que conviver com a opinião daqueles que te cercam. Os que estão fora
de ti também estão dentro de ti.
Querem
que tenhas os pés no chão. Alertam-te para os perigos que decorrem do ter a
cabeça a flutuar pela pouca densidade dos céus. Dizem-te que fatalmente
tropeçarás, como tropeçam todos os que não olham por onde andam, os que não têm
os pés no chão... Falam-te que as nuvens não hão de te sustentar, que na realidade
nunca dão sustentação a nada a não ser a si próprias; que delas despencarás de
um momento para o outro, cedo ou tarde, amanhã, talvez hoje, talvez agora... Que
o chão voraz há de tragar-te como um buraco-negro rumo ao insondável...! Alertam-te,
sim, alertam-te que o que chamas de insondável é, na realidade, apenas o mundo real, é somente
o evidente que não consegues ver por estares com a cabeça nas nuvens... Mas de
nada adianta, tu continuas sendo puxado para elas...
Dizem
que cairás, que fatalmente cairás. E que tua queda será brusca. E que será surpreendente.
E que será marcante, de tão estarrecedora e desconcertante que será. E isso se
não vier a te aniquilar, matando tudo o que tens de ti dentro de ti. Pois será
plena. Plena em plenitude. Dizem que a sentirás em todas as dimensões da tua
alma. Isso se te restar algo da alma que tinhas antes. Perder-te-ás. Dizem que descobrirás,
da pior maneira, o quão irresponsável foste ao colocar tua cabeça entre as
nuvens.
Mas
tu sabes disso tudo. No fundo, bem no fundo, tu o sabes. E concordas, concordas
com tudo o que todos te dizem. Admites que há verdade no que ouves, tanto que,
por vezes, quiseste e tentaste colocar os pés no solo. Sabes que chão cobrará
seu preço dos que dele tentarem se apartar.
Vives,
então, com os pés no chão.
Mas
aflige-te teres os pés no chão... Querias ter a cabeça nas nuvens, para que tua
jornada pela vida fosse mais cheia de encanto... Temes que a rigidez e a rudeza
excessivas do chão comprometam o teu sonhar...
Compreendo-te.
Chão e céu ainda se confrontam dentro de ti. Compreendo-te.
E
resta ainda a opinião daqueles que te cercam, pois os que estão fora de ti
também estão dentro de ti.
Querem
que sejas menos pragmático, querem que dês a ti mesmo o direito de sonhar, pelo
menos um pouco. Alertam-te para os perigos de se ter os pés demasiadamente
presos à dureza do chão. Dizem que essa dureza acabará por penetrar-te, e
instalar-se-á em ti de tal forma que não mais a conseguirás extirpar... Falam que absorverás a
crueza do mundo, que não terás encanto e nem beleza...
Dizem
também que a vida é feita de tropeços que não devem ser para sempre e constantemente evitados. Dizem que um homem precisa arriscar-se a tropeçar, de vez em quando; que tropeços
aperfeiçoam, fazem crescer... Que homens que não tropeçam se acovardam, que a
vida precisa de riscos para ser gratificante... Dizem que quem nunca cai jamais
há de saber como ou mesmo se poderá se reerguer... Que a queda faz parte do
aprendizado, que os muito meticulosos se tornam inseguros, temerosos da
ousadia, e que nada realizam de grandioso...
Compreendo-te.
Compreendo-te muito bem.
Tens
um dilema em ti. A cabeça anda nas nuvens, mas os pés querem estar no chão. E não
sabes se queres a cabeça nas nuvens ou os pés no chão. Temes perder a cabeça,
temes faltar o chão.
És
um estúpido. Afliges-te em vão. É perfeitamente possível ter a cabeça nas
nuvens e os pés no chão. Basta ser grande.
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