quinta-feira, 23 de julho de 2015

Capítulo VI

VI
E ainda há os que me dizem que o amor é cego...! Quem dera fosse...! Talvez provocasse menos estragos...! Talvez não conseguisse nos violentar...! Pois é isso o que o amor faz...! Penetra sem consentimento...! Quem dera fosse realmente cego...! Não nos acharia com tanta facilidade, não poderia nos capturar com tamanha destreza, não seria tão certeiro, não teria tamanha exatidão...! E nada, no mundo dos homens, é tão exato quanto o amor, nada tem tamanha precisão, nem mesmo a equação mais exata da mais exata das ciências...! Quem dera fosse cego...! Poderíamos evitar seu abraço, poderíamos escapar, nos esquivar, fugir, desviar, nos esconder...! Quem dera fosse cego...!

Mas não é.

Cria cegueira, mas não é cego. Age como uma infecção. Invade aleijando. E não nos traz nenhuma compensação que nos aumente a capacidade de percepção da realidade por outros meios, como o que ocorre a um homem que não enxerga, que aperfeiçoa sua capacidade auditiva, táctil e olfativa. Muito pelo contrário. Compromete todos os sentidos.

Ilude, sim, e faz isso com mestria. Talvez por isso seja difícil distinguir o amor da ilusão do amor... Pois mesmo o amor verdadeiro estimula a fantasia, faz sonhar, alucina, ilude... E a ilusão é uma forma de cegueira: compromete o juízo, deforma, distorce, cria realidades irreais... Faz com que o rarefeito seja visto como consistente, transforma o céu em chão e faz com que nele se rasteje acreditando que se voa em segurança pelo firmamento; torna infinito o que é finito, faz com que se caia para cima.

Mas se o amor cria cegueira, talvez seja razoável supor que ele próprio, também, seja cegado pela mesma cegueira que provoca... Sim, talvez o amor seja, de certa forma, um pouco cego... De fato, parece comportar-se como tal... Supõe, e apenas supõe, aquilo que não pode ver... Inclusive a si próprio, já que é impalpável, inaudível e inodoro... Sabe, com exatidão incontestável, a quem se entrega; porém, ao entregar-se, arrasta consigo o hospedeiro no qual se aloja... E como um cego, guia-se por quem supõe saber onde vai, caminha para um destino que não traçou, entra sem saber aonde, permanece onde não sabe estar, absorve o que não sabe ao certo o que é, depende de um corpo que não é o seu...




terça-feira, 21 de julho de 2015

Capítulo V

V
Podeis dizer que me engano, que falo da ilusão de amor como se fosse um amor verdadeiro... Que estou a confundir as duas coisas... Que a ilusão de amor, essa sim, corrompe... Mas não o amor, o amor verdadeiro engrandece, liberta, aperfeiçoa...
Talvez tenhais razão... Talvez esteja eu, hoje, simplesmente envolto em trevas, trevas que momentaneamente estão a me cegar e que se hão de dissipar... Algum dia... Talvez ainda hoje... Sim, talvez alguma névoa esteja a me confundir, a me enganar, a distorcer minha visão das coisas... Mas havereis de concordar comigo se eu afirmar que as trevas do desencanto são as mesmas, quer envolvam o amor, quer a ilusão... Se eu vos afirmar que desencanto é desencanto, não importando o que o motive... Havereis de concordar comigo, também, se eu vos afirmar que trevas são trevas, que escuridão é escuridão, não seleciona aquilo que envolve, se é amor ou ilusão... Simplesmente se instala, englobando todas as coisas, incapacitando todos os olhos... E que o desencanto é capaz de infiltrar-se em ambos, no amor e na ilusão de amor...
Talvez estejais certos, e eu esteja confundindo o amor com outra coisa...
Mas poucos são os que conseguem distinguir o amor verdadeiro de uma ilusão de amor, seja sábio ou estúpido, seja ou não senhor sobre a própria vontade, seja estando por dentro, seja estando por fora... E eu, hoje, não estou entre esses poucos... Sequer me sinto capaz de estar entre eles... Talvez só por hoje, dure esse hoje o que durar...
Não me faleis de amanhãs. Ainda não os quero. Há labirintos internos que ainda quero percorrer.




sábado, 18 de julho de 2015

Capítulo IV


IV

Disse-vos, quando passei por vós pela primeira vez, que o amor corrompia... Corrompia por envolver o medo... Mas hoje, especialmente hoje, me parece que o amor, em si, corrompe... Corrompe como um todo, em essência, simplesmente por ser amor...

Por que, hoje, penso assim...? Será para sempre ou será somente hoje...? Será por ser hoje...? Será por ter havido um ontem...? Será por vislumbrar o amanhã...? Por que tal pensamento...? Será delírio...? Será essa, verdadeiramente, a realidade...? Ou serão apenas trevas envolvendo a realidade...? Ou trevas a me envolver...?

Não sei.

Mas hoje acredito que o amor corrompe. Seja ele amor ou ilusão de amor. E creio também que poucos são os que conseguem distinguir uma coisa da outra, seja sábio ou estúpido, seja estando por dentro, seja estando por fora. O amor corrompe, seja ele qual for.

Se é amor verdadeiro, é fruto da vontade, como também já vos disse uma vez. É vossa essência mais íntima, mais interior, clamando pelo que lhe falta em vossa evolução e que não pode ser encontrado dentro de vós. Está por fora. É só uma necessidade transformada em sentimento, como a falta de alimento é transformada em fome... O amor é fome... Fome da alma, fome de alma.... É a vontade exteriorizando o que em vós é profundo demais para ser compreendido pelo que possuís de consciente, é o que a linguagem do cérebro não consegue processar; é a linguagem do coração se manifestando como pode. É a boca sem língua expelindo um grunhido desesperado. É a alma reivindicando o que lhe é imprescindível e que não pode ser transformado em fala. É necessidade evidenciando a si própria através do disponível... E satisfazer essa necessidade pode exigir, às vezes, alguma corrupção, mesmo pelos que conhecem profundamente a vontade; e, sendo necessidade do que é imprescindível, submete todo o vosso ser a si própria... Não fosse necessidade do imprescindível e poderia ser adiada, remediada, contornada, burlada... Mas não é... É carência do que é imprescindível... É implacável, imperiosa, totalitária... É sempre tirânica, impositiva... Escraviza, cega, enlouquece... Impõe atitudes que nem sempre são dignas... O imprescindível corrompe...

Se é ilusão de amor, e portanto não sendo efetivamente amor, pode ser confundida como tal pelos que desconhecem a própria vontade e suas necessidades; e nesse caso há de evoluir, dentro daquele que ama, exatamente como um vício... Descontrolado, soberano, opressivo, exigente, insaciável... E,  como um vício, vai, sempre e inevitavelmente, levar à corrupção.

Mas amor é, repito, apenas uma manifestação de necessidade, nada além ou mais do que isso; e toda e qualquer outra coisa que a ele se associe, desvinculada da vontade evolutiva daquele que ama, não passa e nunca passará de ser o que realmente é: um simples elemento associado, um anexo, algo que pode ser agregado ao amor sem que necessariamente o seja. Um apêndice, um acessório. Nada mais que isso. Mero produto de uma associação. Não amor. Nunca amor.

E eu vos poderia citar inúmeras dessas associações...

Amor é desejo? Não, não é. O amor alimenta o desejo, fortifica-o, orienta-o, fá-lo mais prazeroso, embeleza-o, até; mas não é desejo; ainda que seja uma ilusão de amor, pois, nesse caso, acaba por mesclar-se ao instinto.

Amor é querer? Não, não é. O amor direciona o querer, mas não é o querer; pois também é possível querer o que não se ama.

O amor se fundamenta na virtude, mas não é virtude; pode alimentar-se dela para fazê-la florescer e frutificar, mas não é virtude. Tanto que pode corrompê-la quando a vontade é fraca; pode fazer com que aquele que ama torne-se possessivo, ciumento, vingativo, rancoroso, invejoso, covarde, subserviente, omisso; e quando se esvai, se não é pela ação da morte que é separação, nada deixa em quem o vivenciou que não seja rancor, mágoa, desprezo, remorso, culpa; tudo, enfim, menos saudade.

O amor verdadeiro não termina, evolui; pode direcionar-se para o mesmo ente, mas também pode projetar-se em direção a outro; supera-se; continua sua busca pela perfeição. Separa os amantes sem ódio, sem rancor. Mas separação com ausência de rancor não é amor, é respeito.

Amor verdadeiro não clama por vingança quando colide com a desilusão; amor verdadeiro perdoa. Mas perdão não é amor, é compreensão, é entendimento, é saber conhecer e reconhecer limites.

Amor verdadeiro não faz com que os amantes se apoderem um do outro; não aprisiona; amar não é compartilhar algemas... Mas deixar partir não é amar, é libertar; e libertar não é permitir...

Vede, tantos elementos podem ser associados ao amor, sem que o sejam, que eu poderia, aqui, chegar perto do infindável, falando em tolerância, lealdade, respeito, reciprocidade, carinho, compaixão, entrega... E tudo o mais que vós, certamente, já pudestes ao menos uma vez na vida associar ao amor...

Mas entendei, são apenas associações...! Por mais virtuosas ou dignas que sejam, se forem integralmente agregadas vão acabar corrompendo...! Seja a vontade sã ou doente, seja no sábio ou no estupido, seja no amor ou na ilusão de amor...!

Se feitas por uma vontade doente vão corromper a virtude na qual o amor verdadeiro deve se assentar, porque será apenas uma ilusão de amor... Entretanto, um estúpido há sempre de a encarar como amor... E nele terá o mesmo poder e o mesmo peso de um amor verdadeiro, e ele não os suportará, não terá forças para levá-lo adiante; será sobrecarga demasiadamente pesada para ser carregada por um estúpido dotado de uma vontade doente. Aquele que acredita amar acabará por repudiar o próprio amor que sente; e há de odiá-lo; há de combatê-lo; há de querer livrar-se dele; e há de associá-lo à pessoa amada; e há de odiá-la; e há de combatê-la; e há de querer livrar-se dela... Quaisquer que sejam os meios... E, assim, algo ou alguém será corrompido.

Mas se me disserdes que num homem sábio de vontade sã o amor jamais corromperá ou será corrompido, discordarei de vós. É muito difícil distinguir o amor de uma ilusão de amor. E ambos podem possuir a mesma força, o mesmo vigor, a mesma intensidade. E a ambos podem ser agregados elementos virtuosos ou louváveis. Mas por mais virtuosos que sejam esses elementos, terão tamanho peso sobre aquele que ama que mesmo a vontade mais sã do mais sábio dos homens deverá fraquejar... Pois um amor completamente virtuoso, verdadeiro ou ilusório, que contivesse todos os possíveis atributos de retidão e de honradez, seria tão opressivo sobre o amante que lhe seria insuportável...! Seria impraticável...! Mesmo para o homem mais sábio... Nem mesmo Deus é capaz de um amor assim...! E mesmo que possa ser praticável para um mortal, seu custo é excessivamente alto: suga, consome, fadiga, esgota a vontade, neutraliza a sabedoria...! Amor assim, associado a todas as virtudes imagináveis, transforma um sábio de vontade sã num estúpido de vontade fraca...! E, em tal condição, os vícios normalmente se instalam, proliferam e vencem as virtudes que, por si só, já são difíceis de preservar... Alguma coisa será corrompida...

Sim, hoje creio que o amor corrompe... Por amor se mente, se omite, se subtrai, se esconde, se finge, se falseia, se deturpa, se conspira...

O amor não deveria prestar-se a tais coisas... Mas presta-se, bem o sabeis... Por amor se cala perante o que deveria ser censurado, por amor se tolera o que deveria ser intolerável, por amor se reprime o que deveria ser manifesto, por amor se oculta o que poderia ser exposto, por amor se impõe fazer o que não deveria sequer ser cogitado...! Prende-se o que é livre, aleija-se o que é íntegro, envenena-se o que é são, extirpa-se o que deveria ser preservado, engole-se o que existe para ser defecado...!

O amor corrompe. E muito. Infelizes serão os que não se conscientizarem de tal coisa, pois ao amar estarão sempre sendo partidos ao meio... Só os que se conscientizarem do poder corruptor do amor poderão amar de forma administrável... E é só nisso que consigo crer hoje...

Não me faleis de amanhãs.