VI
E
ainda há os que me dizem que o amor é cego...! Quem dera fosse...! Talvez
provocasse menos estragos...! Talvez não conseguisse nos violentar...! Pois é isso
o que o amor faz...! Penetra sem consentimento...! Quem dera fosse realmente
cego...! Não nos acharia com tanta facilidade, não poderia nos
capturar com tamanha destreza, não seria tão certeiro, não teria tamanha
exatidão...! E nada, no mundo dos homens, é tão exato quanto o amor, nada tem
tamanha precisão, nem mesmo a equação mais exata da mais exata das ciências...! Quem dera fosse cego...! Poderíamos evitar seu abraço, poderíamos escapar, nos esquivar, fugir, desviar, nos esconder...! Quem
dera fosse cego...!
Mas
não é.
Cria
cegueira, mas não é cego. Age como uma infecção. Invade aleijando. E não nos
traz nenhuma compensação que nos aumente a capacidade de percepção da realidade
por outros meios, como o que ocorre a um homem que não enxerga, que aperfeiçoa sua capacidade auditiva, táctil e olfativa. Muito pelo contrário. Compromete todos os
sentidos.
Ilude,
sim, e faz isso com mestria. Talvez por isso seja difícil distinguir o amor da
ilusão do amor... Pois mesmo o amor verdadeiro estimula a fantasia, faz sonhar,
alucina, ilude... E a ilusão é uma forma de cegueira: compromete o juízo, deforma,
distorce, cria realidades irreais... Faz com que o rarefeito seja visto como
consistente, transforma o céu em chão e faz com que nele se rasteje acreditando
que se voa em segurança pelo firmamento; torna infinito o que é finito, faz com
que se caia para cima.
Mas
se o amor cria cegueira, talvez seja razoável supor que ele próprio, também,
seja cegado pela mesma cegueira que provoca... Sim, talvez o amor seja, de
certa forma, um pouco cego... De fato, parece comportar-se como tal... Supõe, e
apenas supõe, aquilo que não pode ver... Inclusive a si próprio, já que é
impalpável, inaudível e inodoro... Sabe, com exatidão incontestável, a quem se
entrega; porém, ao entregar-se, arrasta consigo o hospedeiro no qual se aloja... E como um cego, guia-se por quem supõe saber onde vai, caminha para um destino
que não traçou, entra sem saber aonde, permanece onde não sabe estar, absorve o
que não sabe ao certo o que é, depende de um corpo que não é o seu...
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