VIII
Imaginei-me
numa fábula, num devaneio alegórico... Onde tudo é possível, mesmo o
irrealizável... Onde o onde, o como e o quando não existem, são realidades... Onde
os opostos não são opostos, onde nada é o que aparenta ser, onde o que aparenta
ser pode não ser... Ou pode ser... Onde o sempre é o nunca... Onde o ser é o não
ser... Onde o algo pode ser qualquer coisa, um animal humanizado ou um homem
animalizado... Um corpo sem alma ou uma alma sem corpo... Como um homem que sabe de deus, mas que não sabe
de si próprio... Ou como um deus onisciente que se espanta com o que não
conhece de si mesmo e que observa, atônito, o que não imaginava ter criado
dentro de si...
Porca
e parafuso discutiam, se confrontavam, vangloriando-se de sua importância, enquanto
eu, nuvem moribunda, impaciente e impotente, flutuava sobre os pedaços
dispersos de um esquife abandonado... Esperando por desfecho, ansiando por
destino, aguardando poder, finalmente, condensar-me e fluir para o meu descanso...
O
diâmetro de um, o diâmetro do outro... A consistência de um, a resistência do
outro... A urgência e a importância do parafuso, a necessidade e a utilidade da
porca... As vantagens de um, as desvantagens de outro... O poder receptivo da
porca, o caráter penetrante do parafuso... A rosca da porca, a rosca do
parafuso...
Vieram
as chaves de fenda, depois os alicates, depois os ferreiros, depois os que se
proclamavam donos da forja... Uns fazem, outros são feitos... Uns são
proprietários, outros são propriedade... Uns utilizam, outros são utilizados...
O que é feito, sendo feito, não pode pertencer-se... O que é feito é fruto da
ação, é ato consumado... É feitura, não ação... Nada pode fazer, senão em
conformidade com a vontade daquele que fez... O que é feito não pode ter
vontade... A vontade é atributo exclusivo daquele que faz... E da vontade
daquele que fez... O que é feito é feito em benefício daquele que faz, não pode
ser dotado de vontade... Uns submetem, outros são submetidos... Uns usam,
outros são usados...
E
eu, nuvem moribunda que a tudo ouvia, ansiava por deixar de flutuar... Alheio à
minha vontade, intuído por um querer que não sabia de onde vinha... E que me
impacientava... Queria condensar-me e repousar... E o esquife, convidativo,
continuava desmantelado...
Os
ferreiros brandiam seus martelos, os donos das forjas exibiam seus recibos...
Que
fazer se aquilo que é feito deseja fazer? Que fazer se a propriedade quer ser
proprietária, pelo menos de si mesma? Que fazer se o que é criado ousa
criar...? O que fazer daquilo que foi feito para prender-se e não quer mais ser
preso...? O que fazer daquilo que foi feito para prender e não mais deseja
prender...?
E
o esquife ainda por ser montado... E eu pairando, nuvem sem um vento que a
mova...
Vieram
outras porcas, todas se dizendo as mais certas... Outros parafusos, todos se
proclamando os mais certos... Parafusos exigindo de parafusos que fossem
parafusos, tanto quanto os ferreiros e os donos das forjas... E todos em nome
da Verdade... Porcas exigindo de porcas que fossem porcas, tanto quanto os
ferreiros e os donos das forjas... E todas, também, em nome da Verdade... E a
Verdade parecia ausente... Porcas se aliando a porcas num discurso de porca... Quem
é mais importante...? Parafusos se aliando a parafusos num discurso de parafuso...
Quem depende de quem...? Mais porcas, mais parafusos... Ambiente de rebelião...
O totalitarismo rondando... Alguns parafusos, perplexos, emudeciam, tanto quanto
algumas porcas... A Empáfia reinava... A Complementaridade se calava... E o
Consenso não era ouvido... E o esquife paralisado, tanto quanto eu...
Perdi-me.
Onde
a Verdade? Quem é mais importante? Quem está certo? Quem está errado?
Minha
vontade ventou sobre mim... Sacudiu-me, em desespero:
─
Não há certo ou errado. Um serve para o outro, não ao outro... Um serve para o outro, ou não serve... Só isso. Nada mais. Não há
Verdade. Há porcas que não serão penetradas, e parafusos que não penetrarão...
A serventia é o discurso vazio do que não sabe o que é o querer... Lembras-te
agora, viajante enevoado, do que me ensinaste sobre a estupidez?
Continuei
flutuando. Já sem preocupações. Na alegoria das fábulas, onde a realidade não
alcança. Percebi que era só isso o que eu queria. Percebi que só isso me bastava.