quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Capítulo VIII

VIII
Imaginei-me numa fábula, num devaneio alegórico... Onde tudo é possível, mesmo o irrealizável... Onde o onde, o como e o quando não existem, são realidades... Onde os opostos não são opostos, onde nada é o que aparenta ser, onde o que aparenta ser pode não ser... Ou pode ser... Onde o sempre é o nunca... Onde o ser é o não ser... Onde o algo pode ser qualquer coisa, um animal humanizado ou um homem animalizado... Um corpo sem alma ou uma alma sem corpo...  Como um homem que sabe de deus, mas que não sabe de si próprio... Ou como um deus onisciente que se espanta com o que não conhece de si mesmo e que observa, atônito, o que não imaginava ter criado dentro de si...

Porca e parafuso discutiam, se confrontavam, vangloriando-se de sua importância, enquanto eu, nuvem moribunda, impaciente e impotente, flutuava sobre os pedaços dispersos de um esquife abandonado... Esperando por desfecho, ansiando por destino, aguardando poder, finalmente, condensar-me e fluir para o meu descanso...

O diâmetro de um, o diâmetro do outro... A consistência de um, a resistência do outro... A urgência e a importância do parafuso, a necessidade e a utilidade da porca... As vantagens de um, as desvantagens de outro... O poder receptivo da porca, o caráter penetrante do parafuso... A rosca da porca, a rosca do parafuso...

Vieram as chaves de fenda, depois os alicates, depois os ferreiros, depois os que se proclamavam donos da forja... Uns fazem, outros são feitos... Uns são proprietários, outros são propriedade... Uns utilizam, outros são utilizados... O que é feito, sendo feito, não pode pertencer-se... O que é feito é fruto da ação, é ato consumado... É feitura, não ação... Nada pode fazer, senão em conformidade com a vontade daquele que fez... O que é feito não pode ter vontade... A vontade é atributo exclusivo daquele que faz... E da vontade daquele que fez... O que é feito é feito em benefício daquele que faz, não pode ser dotado de vontade... Uns submetem, outros são submetidos... Uns usam, outros são usados...

E eu, nuvem moribunda que a tudo ouvia, ansiava por deixar de flutuar... Alheio à minha vontade, intuído por um querer que não sabia de onde vinha... E que me impacientava... Queria condensar-me e repousar... E o esquife, convidativo, continuava desmantelado...

Os ferreiros brandiam seus martelos, os donos das forjas exibiam seus recibos...

Que fazer se aquilo que é feito deseja fazer? Que fazer se a propriedade quer ser proprietária, pelo menos de si mesma? Que fazer se o que é criado ousa criar...? O que fazer daquilo que foi feito para prender-se e não quer mais ser preso...? O que fazer daquilo que foi feito para prender e não mais deseja prender...?

E o esquife ainda por ser montado... E eu pairando, nuvem sem um vento que a mova...

Vieram outras porcas, todas se dizendo as mais certas... Outros parafusos, todos se proclamando os mais certos... Parafusos exigindo de parafusos que fossem parafusos, tanto quanto os ferreiros e os donos das forjas... E todos em nome da Verdade... Porcas exigindo de porcas que fossem porcas, tanto quanto os ferreiros e os donos das forjas... E todas, também, em nome da Verdade... E a Verdade parecia ausente... Porcas se aliando a porcas num discurso de porca... Quem é mais importante...? Parafusos se aliando a parafusos num discurso de parafuso... Quem depende de quem...? Mais porcas, mais parafusos... Ambiente de rebelião... O totalitarismo rondando... Alguns parafusos, perplexos, emudeciam, tanto quanto algumas porcas... A Empáfia reinava... A Complementaridade se calava... E o Consenso não era ouvido... E o esquife paralisado, tanto quanto eu...

Perdi-me.

Onde a Verdade? Quem é mais importante? Quem está certo? Quem está errado?

Minha vontade ventou sobre mim... Sacudiu-me, em desespero:

─ Não há certo ou errado. Um serve para o outro, não ao outro... Um serve para o outro, ou não serve... Só isso. Nada mais. Não há Verdade. Há porcas que não serão penetradas, e parafusos que não penetrarão... A serventia é o discurso vazio do que não sabe o que é o querer... Lembras-te agora, viajante enevoado, do que me ensinaste sobre a estupidez?

Continuei flutuando. Já sem preocupações. Na alegoria das fábulas, onde a realidade não alcança. Percebi que era só isso o que eu queria. Percebi que só isso me bastava.




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