segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Capítulo VII

VII
Ouvi-me:

Nada mais precisa ser dito.

Ouvi-me.

Todas as palavras já estão disponíveis.

Ouvi-me...

Quase todos os pensamentos já foram expressos.

Faltam ouvidos.

Estamos plenos, fartos, cheios. Há uma imensidão de caminhos a percorrer. Há uma profusão inimaginável de conselhos, receitas, palavras, orientações, ...

Qual deles seguir?

Novos conselhos, palavras, orientações, receitas.... Múltiplos caminhos... Todos escutam, mas não há quem  ouça...

Descobriram não ser conveniente negar, censurar, impedir, reprimir, proibir,..

Perda de tempo.

Melhor confundir.

Não se pode impedir a vontade.

Melhor é desnorteá-la. Que ela possa ser tornada insana. Que possa ser vista como louca. Que ninguém acredite nela, que sua palavra seja vômito, que dela se fuja; de uma boca cheia de terra só se espera morte.

E eu tenho boca cheia de terra. E que discutam se é terra boa ou ruim.

Nada mais precisa ser dito. Todas as palavras já estão disponíveis. Quase todos os pensamentos já foram expressos.


Faltam ouvidos. 




quinta-feira, 23 de julho de 2015

Capítulo VI

VI
E ainda há os que me dizem que o amor é cego...! Quem dera fosse...! Talvez provocasse menos estragos...! Talvez não conseguisse nos violentar...! Pois é isso o que o amor faz...! Penetra sem consentimento...! Quem dera fosse realmente cego...! Não nos acharia com tanta facilidade, não poderia nos capturar com tamanha destreza, não seria tão certeiro, não teria tamanha exatidão...! E nada, no mundo dos homens, é tão exato quanto o amor, nada tem tamanha precisão, nem mesmo a equação mais exata da mais exata das ciências...! Quem dera fosse cego...! Poderíamos evitar seu abraço, poderíamos escapar, nos esquivar, fugir, desviar, nos esconder...! Quem dera fosse cego...!

Mas não é.

Cria cegueira, mas não é cego. Age como uma infecção. Invade aleijando. E não nos traz nenhuma compensação que nos aumente a capacidade de percepção da realidade por outros meios, como o que ocorre a um homem que não enxerga, que aperfeiçoa sua capacidade auditiva, táctil e olfativa. Muito pelo contrário. Compromete todos os sentidos.

Ilude, sim, e faz isso com mestria. Talvez por isso seja difícil distinguir o amor da ilusão do amor... Pois mesmo o amor verdadeiro estimula a fantasia, faz sonhar, alucina, ilude... E a ilusão é uma forma de cegueira: compromete o juízo, deforma, distorce, cria realidades irreais... Faz com que o rarefeito seja visto como consistente, transforma o céu em chão e faz com que nele se rasteje acreditando que se voa em segurança pelo firmamento; torna infinito o que é finito, faz com que se caia para cima.

Mas se o amor cria cegueira, talvez seja razoável supor que ele próprio, também, seja cegado pela mesma cegueira que provoca... Sim, talvez o amor seja, de certa forma, um pouco cego... De fato, parece comportar-se como tal... Supõe, e apenas supõe, aquilo que não pode ver... Inclusive a si próprio, já que é impalpável, inaudível e inodoro... Sabe, com exatidão incontestável, a quem se entrega; porém, ao entregar-se, arrasta consigo o hospedeiro no qual se aloja... E como um cego, guia-se por quem supõe saber onde vai, caminha para um destino que não traçou, entra sem saber aonde, permanece onde não sabe estar, absorve o que não sabe ao certo o que é, depende de um corpo que não é o seu...




terça-feira, 21 de julho de 2015

Capítulo V

V
Podeis dizer que me engano, que falo da ilusão de amor como se fosse um amor verdadeiro... Que estou a confundir as duas coisas... Que a ilusão de amor, essa sim, corrompe... Mas não o amor, o amor verdadeiro engrandece, liberta, aperfeiçoa...
Talvez tenhais razão... Talvez esteja eu, hoje, simplesmente envolto em trevas, trevas que momentaneamente estão a me cegar e que se hão de dissipar... Algum dia... Talvez ainda hoje... Sim, talvez alguma névoa esteja a me confundir, a me enganar, a distorcer minha visão das coisas... Mas havereis de concordar comigo se eu afirmar que as trevas do desencanto são as mesmas, quer envolvam o amor, quer a ilusão... Se eu vos afirmar que desencanto é desencanto, não importando o que o motive... Havereis de concordar comigo, também, se eu vos afirmar que trevas são trevas, que escuridão é escuridão, não seleciona aquilo que envolve, se é amor ou ilusão... Simplesmente se instala, englobando todas as coisas, incapacitando todos os olhos... E que o desencanto é capaz de infiltrar-se em ambos, no amor e na ilusão de amor...
Talvez estejais certos, e eu esteja confundindo o amor com outra coisa...
Mas poucos são os que conseguem distinguir o amor verdadeiro de uma ilusão de amor, seja sábio ou estúpido, seja ou não senhor sobre a própria vontade, seja estando por dentro, seja estando por fora... E eu, hoje, não estou entre esses poucos... Sequer me sinto capaz de estar entre eles... Talvez só por hoje, dure esse hoje o que durar...
Não me faleis de amanhãs. Ainda não os quero. Há labirintos internos que ainda quero percorrer.




sábado, 18 de julho de 2015

Capítulo IV


IV

Disse-vos, quando passei por vós pela primeira vez, que o amor corrompia... Corrompia por envolver o medo... Mas hoje, especialmente hoje, me parece que o amor, em si, corrompe... Corrompe como um todo, em essência, simplesmente por ser amor...

Por que, hoje, penso assim...? Será para sempre ou será somente hoje...? Será por ser hoje...? Será por ter havido um ontem...? Será por vislumbrar o amanhã...? Por que tal pensamento...? Será delírio...? Será essa, verdadeiramente, a realidade...? Ou serão apenas trevas envolvendo a realidade...? Ou trevas a me envolver...?

Não sei.

Mas hoje acredito que o amor corrompe. Seja ele amor ou ilusão de amor. E creio também que poucos são os que conseguem distinguir uma coisa da outra, seja sábio ou estúpido, seja estando por dentro, seja estando por fora. O amor corrompe, seja ele qual for.

Se é amor verdadeiro, é fruto da vontade, como também já vos disse uma vez. É vossa essência mais íntima, mais interior, clamando pelo que lhe falta em vossa evolução e que não pode ser encontrado dentro de vós. Está por fora. É só uma necessidade transformada em sentimento, como a falta de alimento é transformada em fome... O amor é fome... Fome da alma, fome de alma.... É a vontade exteriorizando o que em vós é profundo demais para ser compreendido pelo que possuís de consciente, é o que a linguagem do cérebro não consegue processar; é a linguagem do coração se manifestando como pode. É a boca sem língua expelindo um grunhido desesperado. É a alma reivindicando o que lhe é imprescindível e que não pode ser transformado em fala. É necessidade evidenciando a si própria através do disponível... E satisfazer essa necessidade pode exigir, às vezes, alguma corrupção, mesmo pelos que conhecem profundamente a vontade; e, sendo necessidade do que é imprescindível, submete todo o vosso ser a si própria... Não fosse necessidade do imprescindível e poderia ser adiada, remediada, contornada, burlada... Mas não é... É carência do que é imprescindível... É implacável, imperiosa, totalitária... É sempre tirânica, impositiva... Escraviza, cega, enlouquece... Impõe atitudes que nem sempre são dignas... O imprescindível corrompe...

Se é ilusão de amor, e portanto não sendo efetivamente amor, pode ser confundida como tal pelos que desconhecem a própria vontade e suas necessidades; e nesse caso há de evoluir, dentro daquele que ama, exatamente como um vício... Descontrolado, soberano, opressivo, exigente, insaciável... E,  como um vício, vai, sempre e inevitavelmente, levar à corrupção.

Mas amor é, repito, apenas uma manifestação de necessidade, nada além ou mais do que isso; e toda e qualquer outra coisa que a ele se associe, desvinculada da vontade evolutiva daquele que ama, não passa e nunca passará de ser o que realmente é: um simples elemento associado, um anexo, algo que pode ser agregado ao amor sem que necessariamente o seja. Um apêndice, um acessório. Nada mais que isso. Mero produto de uma associação. Não amor. Nunca amor.

E eu vos poderia citar inúmeras dessas associações...

Amor é desejo? Não, não é. O amor alimenta o desejo, fortifica-o, orienta-o, fá-lo mais prazeroso, embeleza-o, até; mas não é desejo; ainda que seja uma ilusão de amor, pois, nesse caso, acaba por mesclar-se ao instinto.

Amor é querer? Não, não é. O amor direciona o querer, mas não é o querer; pois também é possível querer o que não se ama.

O amor se fundamenta na virtude, mas não é virtude; pode alimentar-se dela para fazê-la florescer e frutificar, mas não é virtude. Tanto que pode corrompê-la quando a vontade é fraca; pode fazer com que aquele que ama torne-se possessivo, ciumento, vingativo, rancoroso, invejoso, covarde, subserviente, omisso; e quando se esvai, se não é pela ação da morte que é separação, nada deixa em quem o vivenciou que não seja rancor, mágoa, desprezo, remorso, culpa; tudo, enfim, menos saudade.

O amor verdadeiro não termina, evolui; pode direcionar-se para o mesmo ente, mas também pode projetar-se em direção a outro; supera-se; continua sua busca pela perfeição. Separa os amantes sem ódio, sem rancor. Mas separação com ausência de rancor não é amor, é respeito.

Amor verdadeiro não clama por vingança quando colide com a desilusão; amor verdadeiro perdoa. Mas perdão não é amor, é compreensão, é entendimento, é saber conhecer e reconhecer limites.

Amor verdadeiro não faz com que os amantes se apoderem um do outro; não aprisiona; amar não é compartilhar algemas... Mas deixar partir não é amar, é libertar; e libertar não é permitir...

Vede, tantos elementos podem ser associados ao amor, sem que o sejam, que eu poderia, aqui, chegar perto do infindável, falando em tolerância, lealdade, respeito, reciprocidade, carinho, compaixão, entrega... E tudo o mais que vós, certamente, já pudestes ao menos uma vez na vida associar ao amor...

Mas entendei, são apenas associações...! Por mais virtuosas ou dignas que sejam, se forem integralmente agregadas vão acabar corrompendo...! Seja a vontade sã ou doente, seja no sábio ou no estupido, seja no amor ou na ilusão de amor...!

Se feitas por uma vontade doente vão corromper a virtude na qual o amor verdadeiro deve se assentar, porque será apenas uma ilusão de amor... Entretanto, um estúpido há sempre de a encarar como amor... E nele terá o mesmo poder e o mesmo peso de um amor verdadeiro, e ele não os suportará, não terá forças para levá-lo adiante; será sobrecarga demasiadamente pesada para ser carregada por um estúpido dotado de uma vontade doente. Aquele que acredita amar acabará por repudiar o próprio amor que sente; e há de odiá-lo; há de combatê-lo; há de querer livrar-se dele; e há de associá-lo à pessoa amada; e há de odiá-la; e há de combatê-la; e há de querer livrar-se dela... Quaisquer que sejam os meios... E, assim, algo ou alguém será corrompido.

Mas se me disserdes que num homem sábio de vontade sã o amor jamais corromperá ou será corrompido, discordarei de vós. É muito difícil distinguir o amor de uma ilusão de amor. E ambos podem possuir a mesma força, o mesmo vigor, a mesma intensidade. E a ambos podem ser agregados elementos virtuosos ou louváveis. Mas por mais virtuosos que sejam esses elementos, terão tamanho peso sobre aquele que ama que mesmo a vontade mais sã do mais sábio dos homens deverá fraquejar... Pois um amor completamente virtuoso, verdadeiro ou ilusório, que contivesse todos os possíveis atributos de retidão e de honradez, seria tão opressivo sobre o amante que lhe seria insuportável...! Seria impraticável...! Mesmo para o homem mais sábio... Nem mesmo Deus é capaz de um amor assim...! E mesmo que possa ser praticável para um mortal, seu custo é excessivamente alto: suga, consome, fadiga, esgota a vontade, neutraliza a sabedoria...! Amor assim, associado a todas as virtudes imagináveis, transforma um sábio de vontade sã num estúpido de vontade fraca...! E, em tal condição, os vícios normalmente se instalam, proliferam e vencem as virtudes que, por si só, já são difíceis de preservar... Alguma coisa será corrompida...

Sim, hoje creio que o amor corrompe... Por amor se mente, se omite, se subtrai, se esconde, se finge, se falseia, se deturpa, se conspira...

O amor não deveria prestar-se a tais coisas... Mas presta-se, bem o sabeis... Por amor se cala perante o que deveria ser censurado, por amor se tolera o que deveria ser intolerável, por amor se reprime o que deveria ser manifesto, por amor se oculta o que poderia ser exposto, por amor se impõe fazer o que não deveria sequer ser cogitado...! Prende-se o que é livre, aleija-se o que é íntegro, envenena-se o que é são, extirpa-se o que deveria ser preservado, engole-se o que existe para ser defecado...!

O amor corrompe. E muito. Infelizes serão os que não se conscientizarem de tal coisa, pois ao amar estarão sempre sendo partidos ao meio... Só os que se conscientizarem do poder corruptor do amor poderão amar de forma administrável... E é só nisso que consigo crer hoje...

Não me faleis de amanhãs.





domingo, 14 de junho de 2015

Capítulo III


III

Mas talvez nem sempre queiramos, de fato, controlar nossos pântanos. Há momentos em que os calcanhares de um homem são frágeis demais para sustentar uma alma inchada a sobrecarregar um corpo já cansado de carregar a si próprio.

Choremos, então.

E, neste momento, creio que talvez o choro seja uma maneira de resgatarmos nossa humanidade, nossa confusa, porém exclusiva, humanidade... Um choro... Com toda a nossa humanidade expressa num choro... Como um arrebatamento também exclusivo, único, uma singularidade à qual nem mesmo Deus se permite... Pobre Deus...! Limitado em sua infeliz onisciência...!

Pois choremos, então. Dilatemos nossa humanidade a não mais caber em nós.

Choremos o que nos for possível chorar, se a vontade assim o exigir... Choremos quando o domínio que pensávamos ter se esvair como ar pelo ar que lançamos ao ar, cedendo lugar a uma angústia imensurável... Que penetra sem preencher... Que solidifica o vazio... Que torna denso o nada... Como se a própria tristeza nos perpassasse pelas narinas ao simplesmente respirar, indo e voltando, indo e voltando... Como se o ar se tornasse espesso, e os pulmões não o pudessem suportar... Indo e voltando, indo e voltando...

Choremos. Nada mais pode ser feito. Não por nós. Não controlamos o destino, mas ele também não nos controla. Não há nada nem ninguém no comando. Estamos a mercê de algo que é feito de nós mas não é feito por nós. É o incontrolável que nos controla agora. Mudança de rumo em meio aos caminhos caóticos do caos. Nada mais pode ser feito. O amanhã talvez não venha, e se vier não será um hoje, não terá tido um ontem, nem terá um outro amanhã... O tempo se perdeu.

Então choremos. Choremos o que nos for possível chorar, enquanto ainda nos é permitido chorar... Enquanto ainda nos é possível chorar... Pois nada se lava sem água, e essa é a essência do chorar... Não sabes que lágrimas são feitas de água...? Não sabes que a água lava e leva...?

Choremos.

Nunca a proximidade do longe ou a distância do perto foram tão evidentes. Estivemos ausentes em presença e presentes em ausências. Perto e ao mesmo tempo longe. Pertos da distância. Longes da proximidade. Mas talvez ausência e presença sejam uma única e mesma coisa, se estamos dentro de nós, se estamos dentro dos nossos próprios limites... A vida, de um momento para o outro, torna-se cheia de vazios. E o vazio, incrivelmente, ocupa muitos espaços e tem a gravidade de um buraco-negro...

Pois sempre entristece que o objeto da vontade esteja longe, porém ao alcance da vista; tanto quanto o estar perto, mas fora do alcance das mãos. E sempre incomoda o que está cheio de espaços vazios, porque não há outra utilidade para o espaço que não seja a de ser preenchido por vida. E sempre incomoda a presença da ausência. Sempre incomoda o sentir-se um invólucro para o nada.

Choremos.

Não nos foi dado o que não pudemos pegar por conta própria, apesar de estar ao alcance das mãos e dos olhos. Não nos foi dado estar no controle. Não nos foi dado modelar nossa existência, não pela ação exclusiva da vontade. Querer não é poder...! Mentem os que afirmam o contrário! Somos condenados a querer o que podemos, e qualquer coisa além disso estará nos domínios do devaneio, que são os únicos lugares onde podemos o que queremos.

Mas tocar não é possuir, ver não é compreender, escutar não é comungar, zelar não é doar-se, permanecer não é estar, e estar não é ser.

Temos limites.

E limites são preservação, pois se não os tivéssemos não seríamos o que somos, não em nossa individualidade: seríamos mistura; e ainda que toda mistura seja um todo, o deixará de ser se misturar-se a outra coisa. E limites são proteção, pois se os rompermos estaremos vulneráveis ao que está por fora. E limites são imposição, impõem a existência e a integridade do dentro e do fora. Limites são limites: impedem.

Temos limites.

E se acreditamos, algum dia, que os rompemos, então não eram de fato limites. Eram distorções da realidade, ilusões criadas por nós sobre nós mesmos. Limites não podem ser transpostos. Ou não serão limites.

E todos temos limites.

E dói, dói muito, quando nos espatifamos contra qualquer um deles. Dói até o desespero.

Choremos, então, em meio aos nossos próprios pântanos. Talvez com lágrimas os possamos drenar.



domingo, 3 de maio de 2015

Capítulo II


II

Já prejudiquei alguém?

Certamente que sim. Tenho meus próprios pântanos, e pântanos podem ser infectantes... Podem ser danosos, provocar sofrimento, lesar.... Involuntariamente, talvez, tu me dirás... Pois pântanos não são dotados de vontade, ou seja, não há finalidade ou premeditação no que provocam... Pântanos apenas existem...

Mas pode-se dizer o mesmo dos pântanos interiores de um homem?

Certamente que não. Um homem deve saber controlar seus próprios pântanos, deve saber como extrair deles um diamante, deve poder transformá-los...!  Deve saber e poder sublimá-los; torná-los jardins agradáveis que produzam flores e não pestilência, para que exalem perfume e não fedor...! Ou, simplesmente, para que se tornem inócuos... Ou então, no mínimo, deve saber como contê-los, como controlá-los, deve saber limitar o raio de ação de seu poder infectante...! É o mínimo que se espera de um Homem...

Não deveria, portanto, ter feito o que fiz, o que quer que tenha sido, se foi danoso ou prejudicial a quem quer que seja. Não deveria. E não apenas para poupar a quem prejudiquei, mas também para poupar a mim mesmo... Não apenas em nome de quem foi vítima do dano, mas também por mim, pelo meu próprio bem, pelo bem de minha alma...

Tu, ao ouvires tal coisa, provavelmente me dirás:

— Mas tu és um descrente, Viajante...!  Não crês que um Deus criador tenha te presenteado com uma alma eterna, pura e perfeita...! E então por que te preocupares? Por que te afligires? Se não crês numa Justiça Divina que te governa, então que te importa a alma, seu destino ou seu estado? Não estás sendo um insensato zelando por algo cuja existência não ousas admitir? Não estás te comportando como um tolo, preocupando-te com algo que pode não passar de mera invencionice criada para acalmar espíritos frágeis...? Se não crês numa alma eterna, por que a poupares...?

Admito que o que me dizes é, de certa forma, pertinente...

Mas responder-te-ei, então, que não se trata de acreditar na existência de uma alma eterna, ou de uma eternidade para a alma. Pode ser que a alma, ou o que quer que seja que se compare a isso, seja aniquilada quando a estrutura física, material, na qual se aloja, deixar de existir. Pode ser eterna, pode não ser. Pode morrer comigo, pode não morrer. Não o sei. Não o posso afirmar. Mas tenho por certo que há, sim, dentro de mim, algo que pode ser chamado de alma, e não considero necessário neste momento, para responder à tua pergunta, definir ou sequer tentar definir o que isso possa ser. Eu talvez nem saiba como fazê-lo. E talvez ninguém, de fato, ainda o saiba, mesmo que acredite saber. Mas não considero que a definir seja relevante, não agora, não para esta conversa. Porém afirmo: há alguma coisa de imaterial dentro de mim, seja o que for, qualquer que seja o nome pelo qual seja chamada.

Chamá-la-ei de alma. E pode ser eterna ou não, já te disse, não o sei.

Pode não ser eterna, pode ser que morra comigo; mas nem por isso devo feri-la. É minha. Está em mim. Faz parte de mim. Feri-la, portanto, seria ferir a mim mesmo. E mesmo tu, por mais estúpido que sejas, hás de concordar comigo que ferir a si próprio é insanidade. Portanto, se ao provocar um dano a outrem provoco também um dano em mim mesmo, melhor seria, então, não provocar dano a ninguém, não achas?

Tu me dirás:

— Estás errado, Viajante. Pressupões que sempre que prejudicas a outrem prejudicas também a ti mesmo, e isso não é a verdade. Eu, tanto quanto tu, posso perfeitamente causar um dano a alguém sem que com isso eu deva necessariamente me ferir.  Com um tiro, por exemplo... Provoco um ferimento, mas não me firo... O mundo inteiro, aliás, funciona ao contrário do que imaginas. Vê a serpente, para que entendas o que digo: seu veneno fere, mas ela própria não é ferida; ao contrário, beneficia-se, e muito, da própria peçonha. Ou o leão, também, cujas mandíbulas destroçam a zebra que o mantém vivo...

Contesto teu raciocínio. Não sei se serpentes e leões têm alma, mas, caso a tenham, deve estar também no âmbito do não-material, ou não seria o que estou a considerar como alma; não poderia ser material, como o veneno e a mandíbula; não agiria sobre a matéria como o veneno e a mandíbula. Uma alma pode, obviamente, fazer com que a matéria na qual se guarda atue sobre uma outra matéria, mas ela própria não é matéria, não o pode ser; pode até controla-la, interagir com essa matéria para que fira, mas sua essência é outra; e sua forma de interagir também deve ser outra. Ou não será alma.

Pensemos, portanto. Se não é matéria, não deve ter limites; pode até ser finita, mas não deve ter limites. E se não tiver limites, deve, evidentemente, poder mesclar-se a tudo. E se puder mesclar-se a tudo, deve, necessariamente, tanto afetar quanto ser afetada. Pois a mescla afeta tudo o que é mesclado, ainda que em proporções diversas...

Se me permites a comparação, pensa no ar que te rodeia, a ti e aos que te cercam. Considera-o como imaterial. Está por dentro e por fora de vós. Respirais, tu e os que te rodeiam. Mas o ar que expirais é danoso, danoso para todos, já que o havereis de novamente inspirar mesclado ao que ainda não é danoso; é peçonha, peçonha que se mescla ao que haveis de novamente inspirar; e que estará por dentro e por fora de vós, como um dano que causais a vós mesmos... Tudo o que se miscigena é miscigenado...

Compreendes o que digo...? Que a alma pode causar um dano a si mesma...?

E se assim for, nada ganho, portanto, prejudicando a outrem, já que prejudico a mim mesmo... Mas se assim não for, nada perco, tampouco. Em que minha alma seria prejudicada ao evitar prejudicar alguém?

Minha alma poderia sofrer, tu me dizes... Evitar um dano a outrem pode comprometer sua integridade, sua sobrevivência, seu bem-estar, sua tranquilidade...

Mas se creio que o mal não existe nem naquele que faz e nem naquilo que é feito, e sim naquele que não extrai nada de bom nem daquele que faz e nem daquilo que é feito, então eu, de fato e definitivamente, nada perco; e se perco a culpa é minha, não do dano que me esforcei por evitar; minha, por não saber extrair nada de bom do sofrimento de minha alma, pereça ela comigo ou não.

E compreendes que, assim sendo, tanto faz se a alma se extingue comigo ou não? Que é indiferente se ela é eterna ou não? E compreendes também que, caso essa alma seja eterna como me dizes, e caso tenha sido presente de um Deus criador, esse mesmo Deus há de reclamá-la em sua integridade? E que, também nesse caso, melhor seria não a prejudicar prejudicando a alguém?

Eu, de minha parte, reafirmo-te o que já te disse: não devo causar dano a ninguém, sob pena de danificar minha própria alma. Se a alma perece comigo, nada perco ao fazer tal coisa. Mas se ela sobreviver a mim, se for eterna, como me dizes, garanto-te uma outra coisa: hei de devolvê-la melhor do que estava quando a recebi, mais bela, mais graciosa, mais lapidada... Eis, talvez, a minha busca... Sim, hei de devolvê-la melhor do que estava quando a recebi... A quem quer que seja. Ao que quer que seja. Mesmo que seja ao nada. Ou ao Deus irresponsável que a criou. É minha.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Capítulo I


I

Muito ainda há por dizer, aqui do alto dos meus calcanhares, sobre o que já vi e vejo, sobre o que já disse e digo. Trago comigo, ainda, muito dos pântanos e florestas os quais percorri; muito das geleiras e dos desertos, dos vales e das montanhas; e também do que há no coração dos homens...

E isso às vezes me assusta...

Porque há os que não souberam perceber um certo sentido oculto nas minhas palavras; há os que não souberam interpretar o alcance da minha fala, ainda que metaforizada em um único parágrafo; há os que escutaram sem ouvir, processando dentro de si o que era novo como se fosse mais do mesmo, o que era total como se fosse apenas prévio; como se minha voz lhes alcançasse apenas os ouvidos e não os pensamentos, convertendo o que saiu de minha boca em algo que já tinham dentro de si.

E isso às vezes me assusta...

Percorri, sim, pântanos e florestas, desertos e geleiras, vales e montanhas; mas não apenas os pântanos e florestas dos geógrafos; não apenas os desertos e geleiras nos quais se pode pisar; não apenas os vales e montanhas que constam nos mapas.

Não.

Eu os percorri também dentro do homem. E deveis crer no que digo: também há pântanos e florestas dentro do homem, há vales e montanhas, há desertos e geleiras. Imagino que já tenhais constatado tal coisa, certamente, mas talvez ainda não tenhais percebido que eu também vos falo disso... Dos desertos, pântanos e geleiras que se encontram dentro do homem... Que não percorri tais lugares apenas enquanto ambientes físicos, visíveis e tocáveis. Eu os percorri também dentro do homem, pois que tais coisas estão lá, também, dentro dele, e com todas as suas implicações...

E isso às vezes me assusta...

Já te disse que o homem tem várias faces, várias almas, várias vidas, mais até do que os gatos. Mesmo o Velho reconheceu isso ao dizer que ‘todo homem é uma horda’. O homem é vário.

Crede, todo homem tem pântanos dentro de si. Charcos inconsistentes nos quais é difícil alicerçar qualquer coisa. Lodaçais imundos que exalam pestilência, que atraem e geram o que é nocivo ao próprio homem, que incubam e atraem criaturas danosas. Pântanos tóxicos, devoradores, tão devoradores que podem consumir o próprio homem e tudo o que dele se aproximar, como um abarcador buraco-negro de imundície. Sim, há pântanos dentro do homem, infectando as suas almas. E há homens que são tragados por seus próprios pântanos.

Todo homem tem desertos dentro de si. Aridez na qual nada brota a não ser a fantasmagoria das miragens, enganos feitos de areia, de grãos que vagam sem objetivo construindo cenários amorfos. Sonhos mortos granulados. Paisagens mortas onde nada se desenvolve ou cresce, a não ser a sede perpétua de algo que não mais virá. Sede de alma. Há homens, sim, sequestrados por seus desertos, sufocados por seu calor, onde nada de humano sobrevive; onde até mesmo um Sol torna-se um torturador assassino; onde a própria vida evapora deixando um horizonte causticante e morto em seu lugar. Sim, há desertos dentro do homem, secando as suas almas. E há homens que são carbonizados por seus próprios desertos.

Todo homem tem geleiras dentro de si. Geleiras onde também nada evolui ou cresce. Glaciares maciços que a tudo paralisam, onde tudo estanca, onde tudo se petrifica. Corpos de sangue sólido, imóvel. Habitação inflexível de espíritos inflexíveis. Solidez congelada de ausência de vida; ou de vida imobilizada, suspensa, esterilizada... Massa gélida paralítica e paralisante. Atrofia insensível de sensibilidade. Sim, há geleiras dentro do homem, mineralizando suas almas. E há homens fossilizados por suas próprias geleiras.

Percorri, sim, vales e montanhas, pântanos e florestas, desertos e geleiras. Mas o fiz também dentro do homem. E eu vos preciso conscientizar disso: que todo homem tem desertos, geleiras e pântanos dentro de si. Sim, estão todos lá, dentro dele, dormentes, predatoriamente emboscados. Podem ou não continuar onde e como estão, adormecidos, ignorados até. Mas estão lá, e podem também, a qualquer momento, se manifestar, sem que sequer percebais que vos estão envolvendo, sujeitando, controlando... São devoradores imperceptíveis, e sua voragem é anestésica... Podem se expandir exacerbando-se à totalidade das almas de um homem, a tudo secando, congelando, atolando...

Sim, todo homem tem seus pântanos, seus desertos e suas geleiras dentro de si. Todos, sem exceção. Inclusive eu.

E isso às vezes me assusta...

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Apresentação


APRESENTAÇÃO

Vou começar a publicar virtualmente, através deste blog, o que um dia vai ser o volume II de “O Viajante”.

Antes de maiores explicações, devo pedir desculpas aos que acompanhavam o blog anterior de “O Viajante”, que era ainda um projeto de livro que, felizmente, se concretizou, resultando no volume I publicado pela Chiado Editora. Peço desculpas por tê-lo tirado do ar sem aviso prévio aos mais de cem leitores que acompanhavam mensalmente as publicações, e a razão básica de eu ter feito isso foi simplesmente distração. Eu teria mesmo que tirá-lo do ar, seria antiético perante a Editora transformar “O Viajante – Volume I” em livro e disponibilizar os capítulos gratuitamente pela internet (além do mais, ninguém iria comprar o livro). Mas eu deveria ter avisado antes aos leitores, mas só me toquei disso depois de já ter excluído o blog. Aí já era. Desculpaí.

Mas voltando ao assunto: vou publicar, através deste novo blog, os capítulos que um dia, espero, sejam publicados como um ‘volume II’. Tenho vários textos rascunhados e alguns já em fase final de acabamento literário, o que me torna possível afirmar que em breve, provavelmente já em fevereiro de 2015, os textos inéditos já estarão disponíveis.

O estilo do blog é o mesmo do anterior no que se refere a layout, cores, etc., bem como o formato geral das publicações, por capítulos. E o estilo dos textos é o mesmo daqueles já publicados como 'volume I': minha busca por humanidade. Capítulos relativamente curtos, mas pra fazer pensar. Como no volume I: um livro pra ser lido no banheiro, esporadicamente, em doses homeopáticas, pra que se tenha tempo de meditar e refletir sobre o que foi lido.

Por enquanto é só, pessoas. Bem vindos ao novo blog e boa leitura.

                                                                                                                                             Paulo Pupo